29/09/2020


 




Muitos esforços são colocados no entendimento das razões que levam alguém a querer tirar a própria vida, assim como em medidas preventivas que consigam evitar que uma pessoa que está decidida a se matar o faça.

Não está muito claro se os mesmos esforços são aplicados à prevenção de uma morte desejada, mas lenta. Não se trata de uma condição aguda, vamos dizer assim, em que alguém põe fim à própria vida de uma maneira abrupta. Ao contrário. No suicídio lento, a pessoa vai desligando as tomadas da própria vida, definhando, afundando. É um abandono da vida pouco a pouco.

Muitos daqueles que cometem suicídio lento são pessoas cuja relação com o álcool ou com as drogas é de total dependência. Para essas pessoas, o sentido da vida passou a não mais ser dado pelas experiências que elas verdadeiramente têm – ou se permitem ter -, porque as suas experiências de vida passaram a ter um intermediador, um meio de campo que não é legal: justamente o álcool ou as drogas.

“Essa é uma situação dramática para todos os que cercam aquela pessoa e também para nós médicos que trabalhamos com a mente. Diferentemente do suicídio propriamente dito – quando alguém está na iminência de se matar ou está em meio ao ato de se matar –, que é uma situação na qual temos a obrigação de atuar, no suicídio lento, embora saibamos que é bem provável que essa pessoa vá morrer no decorrer do tempo, não temos a certeza absoluta de que isso ocorrerá. O talvez nos impede de tomar uma atitude mais drástica.

O que sabemos – e estudos como este, publicado em 2019 na “Frontiers in Psychiatry” – é que o suicídio é um comportamento grandemente motivado pelo desejo de fugir de uma dor psicológica que aquela pessoa sente como insuportável. Isso poderia explicar a relação daquela pessoa com as drogas ou o álcool e, também, com o seu desapego lento da vida. 

Neste espaço, quis chamar a atenção para as complexidades que estão por atrás de um ato de suicídio e também que o suicídio apresenta diferentes facetas. É importante que exploremos esse assunto para além das nossas crenças e opiniões pessoais. É preciso haver uma discussão saudável e respeitosa acerca desse tema.” 

Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

fonte: msn

 


0

0 comentários:

Postar um comentário

 
COPYRIGHT (C) TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - CANTINHO DAS IDEIAS
DESIGN POR SUSAN SANTOS | PROGRAMAÇÃO POR SARA SILVA